UNISA CURSO DE SERVIÇO SOCIAL IDENTIFICAÇÃO E ANÁLISE DAS DEMANDAS SOCIAIS NO MUNICÍPIO DE SÃO PAULO Projeto Integrador – Identificação das Demandas Sociais SÃO PAULO/SP
UNIVERSIDADE SANTO AMARO – UNISA CURSO DE SERVIÇO SOCIAL IDENTIFICAÇÃO E ANÁLISE DAS DEMANDAS SOCIAIS NO MUNICÍPIO DE SÃO PAULO Projeto Integrador – Identificação das Demandas Sociais SÃO PAULO/SP 2026 IDENTIFICAÇÃO E ANÁLISE DAS DEMANDAS SOCIAIS NO MUNICÍPIO DE SÃO PAULO Projeto Integrador – Identificação das Demandas Sociais Relatório de Projeto apresentado para obtenção de nota no processo avaliativo da disciplina Projeto Integrador – Identificação das Demandas Sociais, do Curso de Serviço Social da Universidade Santo Amaro – UNISA. SÃO PAULO/SP 2026 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO 3 2 CARACTERIZAÇÃO DO TERRITÓRIO 5 3 IDENTIFICAÇÃO E ANÁLISE DAS DEMANDAS SOCIAIS 8 3.1 Demandas identificadas e evidências 8 3.2 Relações entre as demandas: totalidade, mediações e interseccionalidade 11 4 REDE DE PROTEÇÃO SOCIAL: RESPOSTAS, POTENCIALIDADES E LACUNAS 14 5 PROCEDIMENTOS DE PESQUISA E FONTES UTILIZADAS 20 CONSIDERAÇÕES FINAIS 22 REFERÊNCIAS 24 1 INTRODUÇÃO O município de São Paulo, capital do estado homônimo e núcleo da maior região metropolitana do país, reunia 11.451.245 habitantes no Censo Demográfico de 2022, distribuídos em 96 distritos e 32 subprefeituras (São Paulo, 2023a). Trata-se de um território que concentra, ao mesmo tempo, a maior riqueza produzida no Brasil e algumas das expressões mais agudas da questão social, o que o torna um objeto privilegiado para o diagnóstico de demandas sociais no campo do Serviço Social. A escolha desse recorte territorial decorre de uma razão metodológica e de uma razão política. Do ponto de vista metodológico, o município dispõe de um conjunto amplo e verificável de fontes oficiais e acadêmicas, o que permite sustentar cada afirmação em dados com fonte, período e abrangência identificados. Do ponto de vista político, a escala municipal é aquela em que se organiza a rede socioassistencial do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), conforme a Lei Orgânica da Assistência Social (Brasil, 1993), e em que se materializam os direitos previstos no artigo 6º da Constituição Federal (Brasil, 1988). Para o Serviço Social, o diagnóstico de demandas sociais não se confunde com um inventário de problemas. Conforme sublinha Yazbek em entrevista recente, a proteção social deve ser compreendida como resposta histórica às desigualdades produzidas pela sociedade capitalista, e não como gestão administrativa de carências individuais (Santos, Alves e Wiese, 2025). Nessa perspectiva, identificar demandas significa apreender necessidades sociais e direitos não plenamente atendidos em suas conexões com processos econômicos, políticos e culturais mais amplos. O objetivo geral deste trabalho consiste em identificar e analisar as principais demandas sociais do município de São Paulo, com base em pesquisa bibliográfica e documental, considerando as desigualdades entre suas regiões e as respostas da rede de proteção social. Trata-se de um diagnóstico, e não de um plano de intervenção, cuja elaboração pertence ao módulo seguinte do curso, dedicado ao Planejamento da Intervenção Profissional e Projetos Sociais. Desse objetivo geral decorrem quatro objetivos específicos. O primeiro é caracterizar o território paulistano em suas dimensões histórica, demográfica e socioeconômica, com atenção à distribuição desigual de recursos e condições de vida. O segundo é identificar, com evidências verificáveis, as demandas sociais relativas a renda e trabalho, moradia, alimentação, saúde, educação e proteção social. O terceiro é analisar as relações entre essas demandas à luz das categorias de totalidade, mediação e interseccionalidade. O quarto é mapear a rede de proteção social, distinguindo potencialidades, insuficiências e barreiras de acesso. A abordagem adotada é bibliográfica e documental. Foram consultadas publicações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), da Prefeitura de São Paulo e de suas secretarias, da Rede Nossa São Paulo, do Conselho Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional, além de artigos científicos publicados em periódicos indexados, priorizando produções a partir de 2022. Os procedimentos de seleção e análise, bem como as limitações das fontes, estão descritos na seção 5. O trabalho organiza-se em cinco seções, além destas considerações introdutórias e das considerações finais. A seção 2 caracteriza o território. A seção 3 identifica e analisa as demandas sociais, primeiro apresentando as evidências e, em seguida, examinando suas relações. A seção 4 mapeia a rede de proteção social, incluindo um quadro sintético e indicadores de desempenho. A seção 5 descreve os procedimentos de pesquisa. As considerações finais retomam os achados e indicam os subsídios oferecidos ao módulo seguinte. 2 CARACTERIZAÇÃO DO TERRITÓRIO O município de São Paulo localiza-se no planalto paulista, na porção sudeste do estado de São Paulo, e constitui o polo da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), formada por 39 municípios que somavam 20.743.587 habitantes em 2022 (Pasternak e D’Ottaviano, 2023). A cidade organiza-se administrativamente em 32 subprefeituras e 96 distritos, unidade territorial adotada pela maior parte dos diagnósticos utilizados neste trabalho (São Paulo, 2023b). A formação histórica da cidade explica boa parte de sua configuração atual. Fundada em 1554 como vila colonial, São Paulo permaneceu periférica até o século XIX, quando a economia cafeeira, a ferrovia e a imigração impulsionaram sua transformação em centro comercial e, no século XX, em maior polo industrial do país. A industrialização atraiu intensos fluxos migratórios internos, sobretudo do Nordeste, e produziu um padrão de urbanização em que a moradia popular se expandiu para as franjas da cidade, com infraestrutura precária, enquanto o centro expandido concentrou investimentos e serviços. Esse padrão histórico de urbanização periférica é a base material da segregação socioespacial contemporânea. A pesquisa de França (2023) demonstra que, em São Paulo, a segregação residencial articula classe e raça, com diferenciais raciais acentuados na localização das moradias, de modo que a população negra concentra-se de forma desproporcional nas áreas de menor infraestrutura. Koseoglu (2024) chega a resultado convergente para a RMSP, identificando agrupamento moderado a alto das populações pretas e pardas e maior integração da população branca nas áreas economicamente mais desenvolvidas. Do ponto de vista demográfico, o Censo de 2022 registrou 11.451.245 habitantes no município, com crescimento de apenas 0,15% ao ano entre 2010 e 2022, o menor da série histórica. No mesmo período, o número de domicílios particulares permanentes cresceu 2,81% ao ano, alcançando 4.983.471 unidades, das quais 588.978 (11,8%) estavam vagas, e a média de moradores por domicílio caiu de 3,15 para 2,30 pessoas (São Paulo, 2023a). A coexistência de baixo crescimento populacional, expansão do parque domiciliar e elevada vacância é relevante para o debate sobre moradia, retomado na seção 3. Quanto à composição por cor ou raça, os dados do Censo de 2022 sistematizados pela Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento indicam que 54,3% da população paulistana se declarou branca, 43,5% se declarou preta ou parda, 2,1% amarela e 0,2% indígena. O contingente de pessoas pretas e pardas aproximou-se de cinco milhões, com aumento de cerca de 800 mil pessoas em doze anos (São Paulo, 2024a). Essa mudança de composição, combinada à segregação descrita acima, torna o recorte racial incontornável na análise das demandas. A dinâmica populacional interna do município também é desigual. A partir dos resultados do Censo por distrito, Talarico (2024), em levantamento da Agência Mural, aponta que, dos cerca de 198 mil novos habitantes entre 2010 e 2022, aproximadamente 149 mil concentraram-se na zona sul, onde se localizam os distritos mais populosos da cidade, como Grajaú, com cerca de 384 mil habitantes, e Jardim Ângela, com cerca de 311 mil. Em contrapartida, distritos das zonas norte e leste, como Brasilândia e Cidade Tiradentes, perderam população, este último passando de aproximadamente 211 mil para 194 mil habitantes. As condições socioeconômicas do território são marcadas por contrastes extremos, sistematizados anualmente pelo Mapa da Desigualdade da Rede Nossa São Paulo. Na edição de 2024, a idade média ao morrer variava de 58 anos no distrito de Anhanguera, no extremo noroeste, a 82 anos em Alto de Pinheiros, na zona oeste, uma diferença de 24 anos entre moradores de uma mesma cidade (Rede Nossa São Paulo, 2024; Agência Brasil, 2024). A mesma edição registrava que 35% dos domicílios do distrito de Vila Andrade estavam em favelas, enquanto dez distritos não possuíam nenhuma. Na edição de 2025, construída com 45 indicadores, o distrito da Consolação obteve a melhor pontuação geral, 71,09 pontos, e Brasilândia a pior, 47,27 pontos. Moradores de Alto de Pinheiros e Moema morriam, em média, aos 82 anos, enquanto em Cidade Tiradentes e Lajeado a idade média ao morrer situava-se entre 62 e 63 anos (Rede Nossa São Paulo e Instituto Cidades Sustentáveis, 2025; Capuzzo, 2026). Esses números não medem expectativa de vida ao nascer, mas a idade média das pessoas falecidas em cada distrito, o que ainda assim expressa a distribuição desigual das condições de vida e de morte. A precariedade habitacional é outro traço estrutural do território. Segundo o Censo de 2022, sistematizado pela Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento, São Paulo possuía 1.359 favelas e comunidades urbanas, com 653.878 domicílios e 1.728.235 moradores, contra 1.020 favelas, 368.916 domicílios e 1.280.585 moradores em 2010 (São Paulo, 2024b). Considerada a população total do município, cerca de 15,1% dos paulistanos viviam em favelas em 2022, proporção calculada neste trabalho a partir das duas fontes citadas. Em síntese, o território analisado combina escala metropolitana, baixo crescimento demográfico, envelhecimento relativo da população, aumento da autodeclaração negra e uma segregação socioespacial de base histórica que se expressa em diferenças de até duas décadas na idade média ao morrer entre distritos. É sobre essa base que as demandas sociais examinadas a seguir se constituem, não como fenômenos isolados, mas como expressões particulares de uma totalidade desigual. 3 IDENTIFICAÇÃO E ANÁLISE DAS DEMANDAS SOCIAIS Esta seção constitui o núcleo do diagnóstico. Em 3.1, apresentam-se as demandas identificadas nas fontes consultadas, organizadas por dimensão, com indicação da fonte, do período, da unidade de medida e da abrangência territorial de cada dado. Em 3.2, examinam-se as relações entre elas, evitando explicações que responsabilizem individualmente a população pelas desigualdades e distinguindo associações observadas de relações causais comprovadas. A seleção das dimensões seguiu dois critérios: a existência de evidências pertinentes ao município de São Paulo e a relação direta com direitos sociais previstos na Constituição Federal (Brasil, 1988). Foram contempladas as dimensões de renda e trabalho, moradia, alimentação, situação de rua, saúde, educação infantil e acesso à proteção social. Quando os dados disponíveis referem-se ao estado ou ao país, isso é explicitado, e nenhuma estatística de outra escala é apresentada como se representasse o município. 3.1 Demandas identificadas e evidências A primeira demanda refere-se à insuficiência de renda e à precariedade do trabalho. No plano estadual, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua indicou, para 2025, taxa de desocupação de 5,0% no estado de São Paulo, taxa de informalidade de 29,0% e rendimento médio real de R$ 4.190, frente a 5,6% e R$ 3.560 no Brasil (IBGE, 2026). Esses valores são estaduais e não podem ser transpostos ao município, mas revelam que, mesmo em um mercado de trabalho relativamente aquecido, quase três em cada dez trabalhadores paulistas permanecem sem proteção previdenciária e trabalhista. Na escala municipal, o indicador mais direto de insuficiência de renda é o Cadastro Único para Programas Sociais. O Plano Municipal de Assistência Social 2022-2025 registrava, em janeiro de 2023, 1.509.470 famílias cadastradas em São Paulo, das quais 619.869 em situação de extrema pobreza, 144.222 em situação de pobreza e 351.870 classificadas como de baixa renda (São Paulo, 2023b). Em abril de 2026, a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social informava mais de 1,7 milhão de famílias cadastradas, a maior base cadastral do país (São Paulo, 2026a). Considerando a média de 2,30 pessoas por domicílio apurada pelo Censo (São Paulo, 2023a), as 619.869 famílias em extrema pobreza cadastradas em 2023 correspondem a um contingente estimado superior a 1,4 milhão de pessoas, cálculo aproximado realizado neste trabalho apenas para dimensionar a ordem de grandeza. A demanda por transferência de renda, portanto, não é residual: atinge parcela expressiva da população da cidade mais rica do país, o que remete à discussão sobre a concentração da riqueza e a estrutura ocupacional metropolitana. A segunda demanda diz respeito à alimentação adequada, direito reconhecido pela Lei nº 11.346/2006, que instituiu o Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Brasil, 2006). O I Inquérito sobre a Situação Alimentar no Município de São Paulo, realizado entre maio e julho de 2024 com 3.300 entrevistas em nove áreas da cidade, estimou que 50,5% da população paulistana vivia em algum grau de insegurança alimentar, o equivalente a 5,8 milhões de pessoas. A insegurança grave, que corresponde à experiência de fome, atingia 12,5% da população, ou cerca de 1,4 milhão de pessoas; a moderada, 13,5%; e a leve, 24,5% (Comusan-SP et al., 2024). O inquérito também evidencia os grupos mais atingidos. Em domicílios chefiados por mulheres pretas, apenas 33,6% encontravam-se em segurança alimentar e 17,5% em insegurança grave; em domicílios chefiados por homens brancos, 8,1% estavam em insegurança grave (Brasil de Fato, 2024). Trata-se de uma diferença superior ao dobro na prevalência de fome, associada simultaneamente a gênero e raça da pessoa de referência do domicílio, o que exige leitura interseccional, desenvolvida em 3.2. A terceira demanda é a moradia adequada. Os dados apresentados na seção 2 mostram que 1.728.235 pessoas viviam em 1.359 favelas em 2022, com crescimento de cerca de 448 mil moradores em doze anos (São Paulo, 2024b). O crescimento da população favelada foi, portanto, muito superior ao crescimento populacional total do município no período, que somou 197.742 habitantes (São Paulo, 2023a), o que indica deslocamento de parte da população para formas precárias de moradia mesmo em contexto de estabilidade demográfica. A precariedade habitacional não se limita à insuficiência de unidades. Barrozo et al. (2023) analisaram internações e óbitos por doenças cardiovasculares em São Paulo entre 2010 e 2016, comparando moradores de assentamentos regulares, aglomerados subnormais e assentamentos precários, e concluíram que a situação é ainda mais iníqua nos assentamentos precários em todas as faixas etárias. A moradia, nesse sentido, opera como determinante social da saúde, e sua precariedade constitui demanda que atravessa diferentes políticas setoriais. A quarta demanda, intimamente ligada à moradia e à renda, é a situação de rua. O censo municipal de 2021 contabilizou 31.884 pessoas em situação de rua em São Paulo, aumento de 31% em relação às 24.344 registradas em 2019. Dessas, 19.209 (60,2%) pernoitavam na rua e 12.675 (39,8%) em centros de acolhida. O perfil era majoritariamente masculino (83,4%), composto por pessoas pardas (47,1%) e pretas (23,7%), com concentração nas subprefeituras da Sé (12.851 pessoas) e da Mooca (5.811 pessoas) (São Paulo, 2021; São Paulo, 2022). Levantamentos posteriores, baseados no Cadastro Único, indicavam 93.355 pessoas em situação de rua cadastradas no município em janeiro de 2025 (Metrópoles, 2025). É indispensável, contudo, não comparar esse número com o censo de 2021: o primeiro decorre de contagem censitária em campo, em uma noite determinada, e o segundo, de registros administrativos acumulados, que incluem pessoas que podem ter deixado a rua ou o município. Os dados apontam, de todo modo, para uma demanda de grande magnitude e crescente visibilidade. A quinta demanda relaciona-se ao acesso à saúde. A rede municipal contava, em 2025, com 480 Unidades Básicas de Saúde, 34 Unidades de Pronto Atendimento, 103 Centros de Atenção Psicossocial e 34 Centros Especializados em Reabilitação, em um conjunto de mais de mil equipamentos (São Paulo, 2025a). A existência dessa rede, porém, convive com resultados desiguais: o Mapa da Desigualdade 2025 registra taxa de mortalidade infantil de 20,07 no distrito do Brás, a pior da cidade, e gravidez na adolescência variando de 0,14% em Jardim Paulista a 11,09% em Cidade Tiradentes (Jornal da USP, 2026). A sexta demanda refere-se à educação infantil. Nesse campo, a Secretaria Municipal de Educação informa que a fila por vagas em creche está zerada desde 2020 e que mais de 330 mil bebês e crianças eram atendidos na rede municipal em dezembro de 2025, com 29 novas unidades entregues desde 2023 (São Paulo, 2025b). O dado é relevante justamente por contrastar com as demais dimensões: indica que a inexistência de demanda reprimida oficial não elimina a necessidade de verificar qualidade, localização e adequação da oferta, questão retomada na seção 4. A sétima demanda é a proteção contra violências e violações de direitos, campo de atuação da proteção social especial. O Mapa da Desigualdade 2025 registra, no distrito da Sé, 133,99 homicídios de jovens por 100 mil habitantes e 772,15 vítimas de violência contra a mulher por 10 mil mulheres, enquanto distritos como Alto de Pinheiros, Moema e Itaim Bibi apresentavam taxa zero de homicídios de jovens (Capuzzo, 2026). Em 2026, os Centros de Referência Especializados de Assistência Social atenderam mais de 9 mil pessoas em situação de violação de direitos, em mais de 15 mil atendimentos, envolvendo violência doméstica, abuso e exploração sexual, negligência, trabalho infantil, situação de rua e migração (São Paulo, 2026c). Por fim, as fontes evidenciam uma concentração territorial das demandas. O Plano Municipal de Assistência Social identificou 35 distritos prioritários, sendo 16 na zona leste, 11 na zona sul e 8 na zona norte, selecionados a partir de indicadores como a proporção estimada de domicílios em favelas e a idade média ao morrer (São Paulo, 2023b). Essa distribuição coincide com os distritos de pior desempenho no Mapa da Desigualdade, o que reforça a leitura de que as demandas não estão dispersas aleatoriamente, mas concentradas nas periferias consolidadas pelo processo histórico de urbanização. 3.2 Relações entre as demandas: totalidade, mediações e interseccionalidade As demandas descritas em 3.1 não podem ser compreendidas isoladamente. A categoria de totalidade, recuperada por Eiras (2024) a partir da tradição marxiana e de sua incorporação pelo Movimento de Reconceituação do Serviço Social, exige que cada fenômeno particular seja apreendido em suas conexões com a estrutura social que o produz. Insuficiência de renda, fome, precariedade habitacional e situação de rua aparecem, nessa perspectiva, como expressões particulares de um mesmo processo de produção e distribuição desigual da riqueza na metrópole. A primeira mediação relevante é a do trabalho. A informalidade de 29,0% verificada no estado de São Paulo em 2025 (IBGE, 2026) indica que uma parcela expressiva da população ocupada não acessa proteção previdenciária nem estabilidade de rendimentos. Lemos, Santana e Santos (2024) situam essa configuração nas transformações do capitalismo contemporâneo, marcadas pela precarização do trabalho e pela redução das proteções sociais, que ampliam a demanda dirigida às políticas sociais ao mesmo tempo em que pressionam por sua contenção. A relação entre trabalho e situação de rua ilustra a mediação. Magalhães e Biderman (2026), ao analisarem os microdados do censo municipal de 2021, identificaram dois perfis: uma maioria, estimada em 87%, com trajetória transitória ligada ao desemprego, e uma minoria, de 13%, com características crônicas associadas ao tempo prolongado de rua e ao uso intensivo de substâncias. O achado indica que a situação de rua, em sua maior parte, é produzida pela perda de trabalho e renda, e não por escolhas ou características individuais. A segunda mediação é a do território. A segregação residencial por classe e raça descrita por França (2023) não é apenas o cenário em que as demandas ocorrem, mas um mecanismo que as produz e reproduz. Morar em distritos como Brasilândia, Cidade Tiradentes ou Anhanguera significa maior distância dos empregos formais, maior exposição a habitações precárias e menor acesso a serviços, o que se traduz em diferenças de até 24 anos na idade média ao morrer (Rede Nossa São Paulo, 2024). O território, assim, medeia a conversão da desigualdade de renda em desigualdade de vida e de morte. A terceira mediação é a da moradia como determinante da saúde. O estudo de Barrozo et al. (2023) demonstra associação entre residir em assentamentos precários e piores desfechos cardiovasculares em São Paulo. É importante registrar que se trata de associação estatística consistente, e não de relação causal isolada: a moradia precária concentra fatores como renda insuficiente, poluição, insegurança alimentar e dificuldade de acesso a serviços, de modo que os efeitos observados decorrem do conjunto dessas condições, e não de um único fator. A interseccionalidade permite ir além da soma de desigualdades. Santos e Passos (2025), ao recuperarem a perspectiva de Lélia Gonzalez para o Serviço Social, argumentam que raça, classe e gênero constituem-se mutuamente na formação social brasileira, de modo que a experiência da mulher negra não é redutível à condição de mulher somada à condição de negra. Os dados do inquérito alimentar são eloquentes a esse respeito: a fome atinge 17,5% dos domicílios chefiados por mulheres pretas e 8,1% dos chefiados por homens brancos (Brasil de Fato, 2024). O mesmo cruzamento aparece na situação de rua, em que pessoas pretas e pardas somam 70,8% do total, proporção muito superior aos 43,5% que representam na população da cidade (São Paulo, 2022; São Paulo, 2024a). Aqui a associação entre raça e situação de rua é evidente, mas sua explicação não está na raça em si, e sim nos processos históricos de exclusão do mercado de trabalho formal, da propriedade da terra urbana e das redes de proteção que atingiram de forma desproporcional a população negra desde a abolição. A dimensão de gênero manifesta-se ainda na violência. O índice de 772,15 vítimas de violência contra a mulher por 10 mil mulheres na Sé (Capuzzo, 2026) precisa ser lido com cautela, pois taxas calculadas sobre populações residentes pequenas, em distritos centrais que concentram população flutuante e serviços de denúncia, tendem a ser infladas. Ainda assim, o dado sinaliza que a demanda de proteção contra a violência de gênero converge com as demais na região central, onde também se concentram a situação de rua e a insegurança alimentar. A dimensão geracional aparece em dois extremos. De um lado, a gravidez na adolescência, que chega a 11,09% em Cidade Tiradentes contra 0,14% em Jardim Paulista (Jornal da USP, 2026), expressa a associação entre território, renda e acesso a informação e serviços de saúde sexual e reprodutiva. De outro, o envelhecimento da população, sugerido pela queda da média de moradores por domicílio (São Paulo, 2023a), cria demandas de cuidado que recaem, em geral, sobre mulheres das famílias mais pobres, conformando uma sobrecarga de trabalho não remunerado raramente contabilizada. A dimensão da deficiência, embora menos documentada nas fontes consultadas, é indicada pela existência de 34 Centros Especializados em Reabilitação e de cerca de três mil visitas domiciliares mensais a pessoas com deficiência intelectual na rede municipal de saúde (São Paulo, 2025a). A ausência de dados desagregados sobre pessoas com deficiência nos diagnósticos territoriais consultados constitui, ela própria, uma lacuna a ser registrada, pois a invisibilidade estatística tende a se converter em invisibilidade nas políticas. As mediações institucionais também importam. Castro e Rocha (2024) demonstram que a ausência de endereço funciona como mecanismo moderador dos vínculos sociais e que o estigma associado à situação de rua contribui para produzir uma condição de subcidadania, na qual o acesso a saúde e assistência social é dificultado pelas próprias regras de funcionamento dos serviços. A demanda, nesse caso, não decorre apenas da carência material, mas das barreiras que as políticas erguem sem intenção. Cabe, por fim, uma nota metodológica. Carvalho (2026) lembra que as mediações do Serviço Social se constroem na tensão entre o horizonte ético-político da profissão e as determinações institucionais do cotidiano. As relações apontadas nesta subseção são, em sua maioria, associações sustentadas por dados de diferentes fontes e períodos, e não relações causais experimentalmente comprovadas. Reconhecer esse limite é condição de rigor, e não fragilidade do diagnóstico. 4 REDE DE PROTEÇÃO SOCIAL: RESPOSTAS, POTENCIALIDADES E LACUNAS A rede de proteção social do município de São Paulo articula políticas de assistência social, saúde, educação, habitação, segurança alimentar e transferência de renda, além de organizações da sociedade civil. Esta seção mapeia as principais respostas às demandas identificadas, explicitando os direitos envolvidos, os públicos, as formas de acesso, as potencialidades e as lacunas demonstradas pelas fontes. Ao final, apresentam-se um quadro sintético e um conjunto de indicadores de desempenho. A distinção proposta pelo modelo do Projeto Integrador entre ausência de serviço, insuficiência de cobertura e dificuldade de acesso orienta a análise. Ausência ocorre quando não há oferta para determinada demanda em um território. Insuficiência ocorre quando a oferta existe, mas em quantidade inferior à demanda. Dificuldade de acesso ocorre quando a oferta existe e é suficiente em tese, mas barreiras de informação, localização, horário, documentação ou estigma impedem sua utilização efetiva. No campo da assistência social, a proteção social básica é operada pelos Centros de Referência de Assistência Social (CRAS), porta de entrada do SUAS, conforme a Lei nº 8.742/1993 e a Política Nacional de Assistência Social (Brasil, 1993; Brasil, 2004). Em janeiro de 2022, o município contava com 54 CRAS e uma rede parceirizada de proteção social básica com 754 unidades e 172.830 vagas (São Paulo, 2023b). O acesso é universal para famílias em situação de vulnerabilidade, mediante procura direta ou encaminhamento, e o CRAS é também o responsável pela inclusão no Cadastro Único. A relação entre número de CRAS e famílias cadastradas revela uma insuficiência de cobertura. Com 1.509.470 famílias no Cadastro Único em janeiro de 2023 e 54 unidades em janeiro de 2022, cada CRAS referenciaria, em média, cerca de 27.950 famílias cadastradas, cálculo aproximado realizado neste trabalho com dados de períodos distintos. A Política Nacional de Assistência Social estabelece, para metrópoles, o parâmetro de um CRAS para até 5.000 famílias referenciadas (Brasil, 2004). Mesmo considerando que nem toda família cadastrada é referenciada, a distância entre os dois valores é expressiva. A proteção social especial de média complexidade é operada pelos Centros de Referência Especializados de Assistência Social (CREAS), que passaram de 30 unidades em janeiro de 2022 para 32 em 2026 (São Paulo, 2023b; São Paulo, 2026c). Atendem pessoas e famílias em situação de violação de direitos, e 81% dos atendimentos de 2025 foram iniciados por demanda espontânea (São Paulo, 2026c). Esse dado é uma potencialidade, pois indica que os serviços são conhecidos e procurados, mas também sugere que os fluxos de encaminhamento entre políticas podem estar subutilizados. Para a população em situação de rua, a rede inclui os Centros Pop, seis em janeiro de 2022 (São Paulo, 2023b), os centros de acolhida e os serviços de abordagem, no marco da Política Nacional para a População em Situação de Rua (Brasil, 2009). Em 2026, a Secretaria informava cerca de 27 mil vagas de acolhimento em uma rede socioassistencial com mais de 1.300 serviços e 240 mil vagas (São Paulo, 2026d). No censo de 2021, 39,8% das pessoas em situação de rua estavam acolhidas (São Paulo, 2021), o que caracteriza insuficiência de cobertura combinada com dificuldade de acesso, dado que parte das pessoas não aceita as regras dos equipamentos. A execução dos serviços de acolhimento ocorre majoritariamente por meio de parcerias com organizações da sociedade civil. Costa, Macedo e Oliveira (2026) investigaram essas parcerias em São Paulo, comparando organizações religiosas e não religiosas, e identificaram lacunas no monitoramento governamental dos serviços. Essa constatação indica que a existência de vagas não assegura, por si, a qualidade do atendimento nem a garantia de direitos, e que a vigilância socioassistencial, regulamentada no município pela Portaria SMADS nº 66/2024 (São Paulo, 2024c), é condição de efetividade da rede. No campo da transferência de renda, o Programa Bolsa Família, reinstituído pela Lei nº 14.601/2023, é o principal instrumento de enfrentamento da insuficiência de renda, com acesso condicionado à inscrição no Cadastro Único e à observância de critérios de renda per capita (Brasil, 2023). A potencialidade reside na capilaridade do cadastro municipal, que ultrapassou 1,7 milhão de famílias em 2026, inclusive com unidades móveis de cadastramento (São Paulo, 2026a). Não foram localizados, nas fontes consultadas, dados municipais consolidados sobre o número de famílias beneficiárias e a cobertura do público elegível, o que se registra como limitação. No campo da segurança alimentar, o próprio I Inquérito sobre a Situação Alimentar resultou da articulação entre o Conselho Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional, o Observatório de Segurança Alimentar e Nutricional da Cidade de São Paulo e universidades federais (Comusan-SP et al., 2024). A existência de instância de controle social ativa é uma potencialidade institucional. A lacuna, contudo, é evidente: uma prevalência de 12,5% de insegurança alimentar grave indica que os equipamentos e programas existentes não alcançam parcela expressiva das pessoas em situação de fome, configurando insuficiência de cobertura. No campo da habitação, a Secretaria Municipal de Habitação informava, em fevereiro de 2026, 43.682 unidades habitacionais em construção, 17.986 unidades entregues desde 2021 pelo programa Pode Entrar, mais de 36 mil famílias beneficiadas por urbanização de favelas e mais de 44 mil imóveis regularizados em 2025 (São Paulo, 2026b). Trata-se de um ciclo de investimentos relevante. Confrontado, porém, com 653.878 domicílios em favelas em 2022 (São Paulo, 2024b), o volume de produção evidencia que a resposta habitacional, ainda que crescente, é insuficiente frente à demanda acumulada. No campo da saúde, a rede de 480 UBS e 103 CAPS, além dos serviços de reabilitação (São Paulo, 2025a), constitui a maior estrutura pública de atenção do país em escala municipal. A dificuldade de acesso, nesse caso, manifesta-se de modo territorial: a mortalidade infantil elevada no Brás e a gravidez na adolescência em Cidade Tiradentes e Parelheiros (Jornal da USP, 2026) indicam que a distribuição dos equipamentos e a efetividade das ações de promoção não acompanham a distribuição das necessidades, ainda que não seja possível, com as fontes consultadas, quantificar a cobertura da Estratégia Saúde da Família por distrito. No campo da educação infantil, a inexistência de fila oficial por creche desde 2020 (São Paulo, 2025b) é a potencialidade mais clara identificada. Cabe ponderar que a ausência de demanda registrada não equivale à ausência de necessidade: famílias podem não solicitar vaga por desconhecimento, por distância das unidades ou por incompatibilidade de horários com o trabalho. Não se dispõe, nas fontes consultadas, de estudo que mensure essa demanda não registrada, razão pela qual ela é indicada como objeto de monitoramento, e não como lacuna comprovada. O quadro a seguir sintetiza a relação entre demandas, evidências, direitos, políticas e a avaliação de potencialidades e lacunas, conforme as fontes analisadas. Quadro 1: Síntese das demandas sociais e das respostas da rede de proteção social no município de São Paulo Demanda social Evidência e fonte Direito relacionado Política ou serviço Potencialidade ou lacuna Insuficiência de renda e trabalho precário 619.869 famílias em extrema pobreza no CadÚnico (jan. 2023) (São Paulo, 2023b); informalidade de 29,0% no estado (IBGE, 2026) Assistência social e renda mínima (CF, art. 6º e 203); trabalho Bolsa Família (Lei 14.601/2023); CadÚnico; CRAS Potencialidade: cadastro com mais de 1,7 milhão de famílias. Lacuna: insuficiência de cobertura de CRAS (cerca de 27.950 famílias cadastradas por unidade); ausência de dados municipais sobre cobertura do PBF Insegurança alimentar 50,5% da população em insegurança alimentar e 12,5% em insegurança grave (2024) (Comusan-SP et al., 2024) Alimentação adequada (CF, art. 6º; Lei 11.346/2006) SISAN municipal; Comusan-SP; programas de alimentação Potencialidade: controle social ativo e diagnóstico próprio. Lacuna: insuficiência de cobertura frente a 1,4 milhão de pessoas em situação de fome Moradia precária 1.728.235 pessoas em 1.359 favelas (2022) (São Paulo, 2024b) Moradia (CF, art. 6º) Pode Entrar; urbanização de favelas; regularização fundiária (SEHAB) Potencialidade: 43.682 unidades em obras (2026). Lacuna: insuficiência de cobertura frente a 653.878 domicílios em favelas Situação de rua 31.884 pessoas (2021), 60,2% pernoitando na rua (São Paulo, 2021) Assistência social; moradia; saúde (Decreto 7.053/2009) Centros Pop; centros de acolhida; abordagem social; Consultório na Rua Potencialidade: 27 mil vagas de acolhimento (2026). Lacuna: insuficiência de cobertura e dificuldade de acesso por regras e estigma; lacunas de monitoramento das parcerias Acesso desigual à saúde Mortalidade infantil de 20,07 no Brás; gravidez na adolescência de 11,09% em Cidade Tiradentes (Jornal da USP, 2026) Saúde (CF, art. 196) UBS (480), CAPS (103), UPA (34), CER (34) Potencialidade: maior rede municipal do país. Lacuna: dificuldade de acesso territorial; ausência de dados de cobertura por distrito nas fontes consultadas Educação infantil Fila por creche zerada desde 2020; mais de 330 mil crianças atendidas (São Paulo, 2025b) Educação (CF, art. 208, IV) CEIs diretos e parceiros; CEMEIs Potencialidade: ausência de demanda reprimida oficial. Proposta de monitoramento: demanda não registrada Violências e violações de direitos Mais de 9 mil pessoas atendidas pelos CREAS em 2026 (São Paulo, 2026c); 772,15 vítimas de violência contra a mulher por 10 mil na Sé Proteção especial (LOAS, art. 2º); Lei Maria da Penha CREAS (32); serviços de proteção a mulheres, crianças e adolescentes Potencialidade: 81% dos atendimentos por demanda espontânea. Lacuna: fluxos intersetoriais de encaminhamento pouco evidenciados Fonte: elaborado pela autora (2026) com base nas fontes indicadas. Além dos indicadores sociais utilizados no diagnóstico, que medem condições de vida da população, a análise da rede requer indicadores de desempenho, que medem a capacidade de resposta dos serviços. A distinção é importante: a taxa de insegurança alimentar é um indicador social; a proporção de pessoas em situação de rua acolhidas é um indicador de desempenho da rede. A seguir, apresentam-se cinco indicadores, com finalidade, fórmula, fonte e período, calculando-se resultados apenas quando os dados são verificáveis e compatíveis. O primeiro indicador é a razão de famílias cadastradas por CRAS. Sua finalidade é dimensionar a carga de referenciamento da proteção social básica. A fórmula é o número de famílias no Cadastro Único dividido pelo número de CRAS em funcionamento. Com 1.509.470 famílias em janeiro de 2023 e 54 CRAS em janeiro de 2022 (São Paulo, 2023b), o resultado aproximado é de 27.950 famílias por unidade. A defasagem de um ano entre os dois dados constitui limitação, e o valor deve ser lido como ordem de grandeza, a ser recalculado com dados de mesmo período. O segundo indicador é a proporção de pessoas em situação de rua acolhidas. Sua finalidade é medir a cobertura dos serviços de acolhimento. A fórmula é o número de pessoas em centros de acolhida dividido pelo total de pessoas em situação de rua, multiplicado por cem. Com base no censo de 2021, o resultado é de 39,8%, ou 12.675 de 31.884 pessoas (São Paulo, 2021). O indicador só pode ser atualizado com nova contagem censitária, uma vez que os registros do Cadastro Único não são comparáveis. O terceiro indicador é a razão entre vagas de acolhimento e população em situação de rua. Sua finalidade é avaliar a suficiência potencial da oferta. A fórmula é o número de vagas de acolhimento dividido pelo total de pessoas em situação de rua. Embora existam dados sobre as vagas, cerca de 27 mil em 2026 (São Paulo, 2026d), e sobre a população, 31.884 em 2021 (São Paulo, 2021), o intervalo de cinco anos entre eles impede um cálculo compatível. O indicador é, portanto, apresentado como proposta de monitoramento, a ser calculado quando o próximo censo municipal for divulgado. O quarto indicador é a proporção de atendimentos do CREAS iniciados por demanda espontânea. Sua finalidade é avaliar o reconhecimento social do serviço e a efetividade dos fluxos de encaminhamento. A fórmula é o número de atendimentos iniciados por procura direta dividido pelo total de atendimentos, multiplicado por cem. Segundo a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social, o resultado foi de 81% em 2025 (São Paulo, 2026c). Valores muito elevados podem indicar tanto acessibilidade quanto fragilidade das articulações intersetoriais, e a interpretação exige dados complementares. O quinto indicador é a razão de habitantes por Unidade Básica de Saúde. Sua finalidade é dimensionar a densidade da atenção primária. A fórmula é a população residente dividida pelo número de UBS. Com 11.451.245 habitantes em 2022 (São Paulo, 2023a) e 480 UBS em 2025 (São Paulo, 2025a), o resultado aproximado é de 23.860 habitantes por unidade. O indicador não capta a distribuição territorial das unidades nem a cobertura efetiva das equipes de Saúde da Família, motivo pelo qual se recomenda seu desdobramento por distrito como proposta de monitoramento. Dois indicadores adicionais são indicados apenas como propostas, por ausência de dados municipais verificáveis nas fontes consultadas: a taxa de cobertura do Bolsa Família sobre as famílias elegíveis, calculada como famílias beneficiárias divididas por famílias com renda per capita dentro do critério legal, e o tempo médio de espera por vaga em centro de acolhida. Não se apresentam metas nem avaliações de eficácia para nenhum dos indicadores, pois isso exigiria séries históricas e parâmetros normativos que não foram localizados. Em síntese, a rede de proteção social paulistana caracteriza-se por escala e capilaridade sem paralelo entre os municípios brasileiros, o que constitui sua principal potencialidade. Suas lacunas concentram-se na insuficiência de cobertura frente a demandas de grande magnitude, especialmente na proteção social básica, no acolhimento e na habitação, e nas dificuldades de acesso associadas a barreiras territoriais e institucionais. A ausência de dados públicos consolidados sobre alguns indicadores, por sua vez, limita a avaliação e constitui, ela própria, uma lacuna da rede. 5 PROCEDIMENTOS DE PESQUISA E FONTES UTILIZADAS Este trabalho caracteriza-se como pesquisa de natureza qualitativa e quantitativa descritiva, de abordagem bibliográfica e documental, sem coleta de dados primários. Não foram realizadas entrevistas, visitas institucionais, questionários ou observações de campo. Todas as informações apresentadas provêm de documentos oficiais, bases estatísticas, publicações jornalísticas de instituições reconhecidas e artigos científicos, acessados em setembro de 2026, conforme as datas registradas nas referências. O recorte territorial adotado é o município de São Paulo, com atenção às desigualdades internas entre distritos e subprefeituras sempre que as fontes ofereceram dados nessa desagregação. Quando os dados disponíveis referem-se ao estado de São Paulo ou ao Brasil, como no caso das estatísticas de trabalho da PNAD Contínua, isso foi explicitado no texto, e tais dados foram utilizados apenas como contexto, jamais como representação direta da realidade municipal. A pesquisa documental priorizou fontes oficiais. Do IBGE, utilizaram-se os resultados do Censo Demográfico de 2022 e da PNAD Contínua, sistematizados pela Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento nos Informes Urbanos nº 59 e nº 65 e na tabela de favelas por censo. Da Prefeitura de São Paulo, consultaram-se o Plano Municipal de Assistência Social 2022-2025, o censo da população em situação de rua de 2021, publicações das secretarias de Assistência e Desenvolvimento Social, Saúde, Educação e Habitação, e a legislação municipal sobre vigilância socioassistencial. Da sociedade civil e do controle social, utilizaram-se as edições de 2024 e 2025 do Mapa da Desigualdade, da Rede Nossa São Paulo e do Instituto Cidades Sustentáveis, e o I Inquérito sobre a Situação Alimentar no Município de São Paulo, coordenado pelo Conselho Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional com universidades federais. Para alguns dados dessas publicações, recorreu-se à sua divulgação por veículos institucionais, como a Agência Brasil e o Jornal da USP, indicados nas citações, em razão da indisponibilidade de versão em texto dos relatórios completos no momento da consulta. A pesquisa bibliográfica concentrou-se em artigos publicados a partir de 2022 em periódicos indexados, localizados por meio do Directory of Open Access Journals e da biblioteca SciELO, com os descritores demandas sociais, questão social, proteção social, situação de rua, segregação, interseccionalidade e São Paulo. Foram selecionados artigos das revistas Serviço Social & Sociedade, Libertas, Caderno CRH, Estudos Avançados, Cadernos Gestão Pública e Cidadania e Revista Desenvolvimento Social, além de textos legais federais que fundamentam os direitos analisados. Os critérios de seleção foram quatro: pertinência ao recorte territorial ou ao referencial teórico do Serviço Social; autoria institucional ou científica identificável; disponibilidade de identificador persistente, como DOI ou endereço eletrônico verificável; e atualidade, com preferência por publicações de 2022 em diante, admitidos textos legais mais antigos por sua natureza normativa. Foram excluídas fontes sem autoria, sem data ou cujo conteúdo não pôde ser acessado. O procedimento de análise consistiu em três etapas. Na primeira, os dados foram organizados por dimensão de demanda, com registro de fonte, período, unidade de medida e abrangência. Na segunda, procedeu-se à leitura relacional, articulando as evidências às categorias de totalidade, mediação e interseccionalidade a partir da literatura selecionada. Na terceira, mapeou-se a rede de proteção social e formularam-se indicadores de desempenho, calculados apenas quando os dados eram compatíveis. As limitações são relevantes e devem ser explicitadas. Primeiro, os dados provêm de períodos distintos, entre 2021 e 2026, o que restringe cálculos de razão e comparações. Segundo, alguns indicadores, como cobertura do Bolsa Família e da Estratégia Saúde da Família por distrito, não foram localizados em fontes públicas consolidadas, o que não deve ser interpretado como inexistência dos serviços ou das demandas. Terceiro, os dados sobre situação de rua provenientes do Cadastro Único não são comparáveis ao censo de 2021, por diferença de método. Quarto, o acesso a determinadas páginas oficiais esteve restrito no período da pesquisa, em razão de limitações eleitorais à comunicação pública, o que exigiu o uso de divulgações institucionais alternativas para alguns dados. Quinto, indicadores calculados sobre populações residentes pequenas, como as taxas do distrito da Sé, podem ser inflados pela população flutuante. Essas limitações foram consideradas na redação e devem ser observadas na utilização deste diagnóstico como subsídio ao planejamento da intervenção. CONSIDERAÇÕES FINAIS Este Projeto Integrador teve como objetivo identificar e analisar as principais demandas sociais do município de São Paulo, a partir de pesquisa bibliográfica e documental, considerando as desigualdades entre suas regiões e as respostas da rede de proteção social. O percurso realizado permite retomar, sem introduzir dados novos, os principais achados e sua relevância para a continuidade da formação profissional. Foram identificadas sete demandas sustentadas pelas fontes: insuficiência de renda e precariedade do trabalho, insegurança alimentar, moradia precária, situação de rua, acesso desigual à saúde, educação infantil e proteção contra violências e violações de direitos. A magnitude de algumas delas é notável: metade da população em insegurança alimentar, mais de 1,7 milhão de pessoas em favelas, mais de 600 mil famílias em extrema pobreza cadastradas e dezenas de milhares de pessoas em situação de rua. A análise relacional demonstrou que essas demandas não são fenômenos independentes. A precarização do trabalho converte-se em insuficiência de renda; a insuficiência de renda, mediada pela segregação territorial, converte-se em moradia precária e em situação de rua; a moradia precária associa-se a piores condições de saúde; e o conjunto dessas condições se expressa em diferenças de até 24 anos na idade média ao morrer entre distritos de uma mesma cidade. Trata-se de expressões particulares de uma totalidade desigual, e não de carências individuais. Os grupos mais atingidos foram identificados com clareza nas fontes. A população negra, que representa 43,5% dos habitantes, compõe 70,8% das pessoas em situação de rua. Os domicílios chefiados por mulheres pretas apresentam prevalência de fome mais de duas vezes superior à dos chefiados por homens brancos. Os moradores dos distritos periféricos das zonas leste, sul e norte, onde se concentram os 35 distritos prioritários da assistência social, vivem menos e enfrentam maiores taxas de gravidez na adolescência e de mortalidade infantil. Classe, raça, gênero, geração e território atravessam-se mutuamente na produção dessas desigualdades. Sobre a rede de proteção social, concluiu-se que sua principal potencialidade é a escala: mais de 1.300 serviços socioassistenciais, 480 unidades básicas de saúde, fila zerada por creche e o maior cadastro de programas sociais do país. Suas lacunas concentram-se na insuficiência de cobertura, especialmente na proteção social básica, no acolhimento e na habitação, e nas dificuldades de acesso associadas a barreiras territoriais, regras institucionais e estigma. A ausência de dados públicos consolidados sobre alguns indicadores de desempenho constitui, ela própria, uma lacuna a ser enfrentada. O diagnóstico oferece subsídios diretos ao módulo seguinte, Planejamento da Intervenção Profissional e Projetos Sociais, em quatro sentidos. Primeiro, delimita demandas e territórios prioritários com base em evidências, o que permite fundamentar a escolha do objeto de intervenção. Segundo, identifica os grupos mais atingidos, o que orienta a definição do público de um projeto. Terceiro, mapeia a rede existente, o que evita a proposição de ações redundantes e favorece a articulação intersetorial. Quarto, propõe indicadores de desempenho e registra suas limitações, o que fornece bases para o desenho do monitoramento e da avaliação. Ao Serviço Social, o exercício reafirma que o conhecimento da realidade é condição da intervenção qualificada. Diagnosticar demandas sociais em São Paulo significa reconhecer, com rigor e sem estigmatização, que a fome, a rua e a moradia precária na cidade mais rica do país são produtos de processos históricos e econômicos que a profissão tem o compromisso ético-político de enfrentar, na defesa intransigente dos direitos e da proteção social pública. REFERÊNCIAS AGÊNCIA BRASIL. SP: pessoas da periferia vivem 24 anos menos que as de bairros nobres. Agência Brasil, Brasília, 27 nov. 2024. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2024-11/sp-pessoas-da-periferia-vivem-24-anos-menos-que-as-de-bairros-nobres. Acesso em: 25 set. 2026. BARROZO, Ligia Vizeu; LEITE, Carlos; AMARO JR., Edson; SALDIVA, Paulo Hilário Nascimento. Saúde cardiovascular e habitação: um diálogo importante travado nos assentamentos precários de São Paulo. Estudos Avançados, São Paulo, v. 37, n. 109, p. 7-24, 2023. DOI: https://doi.org/10.1590/s0103-4014.2023.37109.002. Acesso em: 25 set. 2026. 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